Em Londres, a IA já engole vagas de escritório
Vagas de analista financeiro, advogado, consultor e desenvolvedor despencam enquanto empresas trocam equipes juniores por modelos de inteligência artificial
Por Bloomberg
Pesquise por “analista financeiro” e você provavelmente encontrará cerca de 80 vagas em Londres, segundo um importante site de recrutamento. Se o número parece surpreendentemente baixo para um dos maiores centros bancários e corporativos do mundo, é porque é mesmo: quatro anos antes, o mesmo site exibia mais de 350 vagas desse tipo.
A função se tornou uma das principais vítimas da inteligência artificial. É um destino compartilhado por outros cargos de colarinho-branco, à medida que os trabalhadores de terno que antes lotavam os escritórios, pubs e vagões do metrô de Londres parecem cada vez mais fantasmas do passado da City, bairro que é o centro financeiro da cidade.
Centro internacional para profissionais, a capital britânica virou o marco zero da mudança provocada pela IA no mercado de trabalho. Dados da Adzuna — o site de recrutamento mencionado acima — revelam quais anúncios sofreram as quedas mais acentuadas. Antes na casa das centenas, vagas para advogados corporativos, desenvolvedores de software, consultores de gestão e gerentes de marketing digital da City despencaram para a casa das dezenas.
Os setores de colarinho-branco agora respondem por apenas um quarto do total de vagas em Londres, segundo a Adzuna, ante quase metade em 2022.
Hedge funds que antes contratavam três analistas juniores para examinar balanços e documentos de empresas agora precisam de apenas uma pessoa para supervisionar um modelo de IA. Consultorias estão cortando assistentes executivos, à medida que tarefas como reservar viagens e administrar as agendas de sócios ficam mais fáceis de automatizar. Bancos estão reduzindo turmas de analistas juniores e eliminando funções de back office, enquanto a IA assume atividades como atendimento ao cliente e monitoramento de transações.
“Uma mudança enorme está acontecendo em escritórios, hospitais, salas de aula, estúdios de cinema, serviços públicos e em tudo aquilo que talvez defina a nossa cidade, e isso está acontecendo rápido”, disse Martha Lane-Fox em uma conferência sobre IA no King’s College London. A empreendedora, conhecida por ter fundado a lastminute.com durante o boom das pontocom, foi nomeada pelo prefeito Sadiq Khan para liderar a resposta da capital à IA.
Adam Banaszek, designer gráfico de 39 anos, é um dos londrinos de colarinho-branco que veem seus empregos desaparecerem sob seus pés. Uma busca de seis meses não resultou em uma vaga, mas deixou claro como a inteligência artificial e a turbulência econômica estão remodelando o trabalho criativo.
“Eles querem um designer gráfico que também seja redator, que também seja videomaker e que também seja animador — basicamente pessoas renascentistas”, disse Banaszek, que agora trabalha como freelancer. “E aí oferecem um dinheiro ridículo”, acrescentou, citando salários em Londres de cerca de 35 mil libras por ano, ou US$ 47,1 mil.
A mudança não aparece apenas nos anúncios de vagas. Banaszek já teve trabalhos rejeitados em favor de designs feitos por IA, em duas ocasiões.
Uma pesquisa encomendada pela Greater London Authority mostrou que cerca de metade dos trabalhadores da capital, o equivalente a 2,4 milhões de pessoas, está em empregos nos quais a IA pode automatizar parte de suas tarefas — uma proporção superior à média do Reino Unido.
A tecnologia pode ajudar muitos desses profissionais a se tornarem mais produtivos, especialmente aqueles em funções multifacetadas que exigem julgamento, criatividade e construção de relacionamentos.
Por outro lado, alguns auxiliares contábeis, corretores e funcionários administrativos são considerados altamente expostos ao risco de perder seus empregos para ferramentas de IA. Em Londres, há mais de 300 mil trabalhadores nessa categoria. Outros 748 mil aparecem na segunda categoria de maior risco, que inclui economistas, desenvolvedores de software e contadores.

Veja o caso dos hedge funds. “A demanda por grandes gestores de portfólio nunca foi tão alta”, disse Sean Sweeney, fundador da CW Talent Solutions. “Mas a camada de pessoas abaixo deles está desaparecendo rapidamente. As firmas já não estão montando equipes em torno dos gestores. Estão entregando uma ferramenta de IA a uma pessoa e deixando por isso mesmo.”
O quadro se repete em outros setores. No marketing, ferramentas de IA conseguem analisar campanhas, acompanhar a atividade em sites e gerar insights instantâneos, reduzindo a necessidade de equipes de seis a dez analistas juniores. Boa parte do trabalho “tedioso” de auditoria, como revisar registros financeiros ou checar transações, pode ser automatizada, deixando o julgamento humano principalmente para a aprovação final, disse Shamus Rae, investidor privado em empresas de IA e ex-chefe de inovação da KPMG no Reino Unido, na mesma conferência do KCL em que Lane-Fox falou.
Na Ocado Technology, empresa de robótica para o varejo, o CEO James Matthews disse que a IA ajuda engenheiros de software a concluir tarefas como reestruturar códigos existentes para torná-los mais fáceis de entender e atualizar até dez vezes mais rápido.
Executivos de bancos falam de forma cada vez mais aberta sobre o uso da IA para reduzir custos e aumentar receitas. O Standard Chartered Plc, sediado em Londres, deve cortar cerca de 8 mil cargos por causa de ganhos de eficiência impulsionados por IA. O HSBC Holdings Plc considera eliminar cerca de 20 mil empregos, com a expectativa de que a IA permita reduzir equipes em áreas de middle e back office, informou a Bloomberg no início deste ano.
As empresas investiram muito em IA nos últimos anos, mas os ganhos radicais esperados por muitas delas ainda não apareceram. Um estudo recente da Accenture mostrou que executivos ainda veem a tecnologia principalmente como uma forma de cortar custos, e não como uma mudança estrutural de produtividade.
“As empresas ainda estão tentando entender isso e, se você vê seu concorrente eliminando 5% ou 10% dos empregos e você é uma companhia aberta, pensa: ‘ok, temos que fazer o mesmo’”, disse Tomas Chamorro-Premuzic, da consultoria Russell Reynolds Associates. Ele acrescentou que poucas empresas elaboraram um plano de três a cinco anos para sua força de trabalho.

Esses cortes tendem a atingir vagas de entrada, o que cria o risco de problemas mais adiante.
“Se você não vai contratar uma turma de jovens para treinar e desenvolver ao longo dos próximos dois ou três anos, como vai alimentar a fila de gerentes médios nos próximos anos?”, disse Andrew Hunter, cofundador da Adzuna. “Não tenho certeza de que alguém tenha uma boa resposta para isso.”
Banaszek, o designer gráfico que trabalhou em Paris, Berlim, Munique e em sua Varsóvia natal antes de se mudar para Londres um ano e meio atrás, disse que está “constantemente pensando no que mais fazer”.
“Talvez eu me candidate a uma vaga em uma cafeteria para trabalhar como barista, porque nunca fiz isso e parece que eles se divertem bastante”, disse. “Também quero explorar um pouco a pintura em tela, trabalhar com as mãos.”





























































































































































































































































































































































































































































