Rã quase transparente e menor que uma moeda é descoberta em Luziânia; conheça
Nova espécie foi encontrada em matas de galeria de Luziânia e só costuma cantar durante chuvas fortes; pesquisadores precisaram cruzar DNA, canto e características físicas para confirmar a descoberta
Ela tem pouco mais de dois centímetros, menor que uma moeda, uma aparência esverdeada e quase transparente e um hábito que não facilita em nada a vida de quem tenta encontrá-la: costuma cantar apenas quando a chuva cai forte sobre o Cerrado de Luziânia. Foi nesse cenário que uma nova espécie de rã-de-vidro foi encontrada.
Foi justamente entre árvores e pequenos riachos da cidade goiana, no Entorno do Distrito Federal, que pesquisadores encontraram uma espécie que, até então, a ciência não conhecia. Batizada de Vitreorana micaelae, a pequena rã-de-vidro foi descrita oficialmente por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade de Brasília (UnB).
O estudo foi publicado em setembro na revista científica ZooKeys. A descrição da espécie foi feita a partir de uma combinação de análises morfológicas, genéticas e bioacústicas — ou seja, os pesquisadores olharam para o corpo do animal, analisaram seu material genético e também estudaram o canto.
A nova espécie pertence ao gênero Vitreorana, que agora reúne 11 espécies conhecidas. No Brasil, quatro espécies desse gênero são registradas, e a Vitreorana micaelae é a segunda conhecida como exclusiva do Cerrado.
Difícil de encontrar
A rã foi localizada em matas de galeria próximas a pequenos riachos que alimentam o rio Corumbá, em Luziânia. O ambiente é fundamental para a espécie, que depende da proximidade da água para completar seu ciclo de vida. Mas encontrar o animal não foi uma tarefa simples.
Os pesquisadores descobriram que os machos costumam permanecer no alto das árvores, em barrancos inclinados próximos aos rios. E há outro detalhe: eles vocalizam principalmente durante períodos de chuva intensa.
O tamanho também ajuda a explicar por que a espécie passou despercebida. Os machos adultos analisados pelos cientistas medem entre 21,7 e 26,1 milímetros.
O canto
A aparência da rã, sozinha, não foi suficiente para convencer os pesquisadores de que estavam diante de uma espécie nova. Depois de localizar os animais, a equipe gravou o canto e passou a comparar os exemplares com outras rãs-de-vidro conhecidas. As análises encontraram diferenças consistentes em características físicas, no canto e no material genético.
Entre os detalhes observados estão diferenças na forma da íris, na pigmentação do dorso e na morfologia da região próxima à cloaca. O estudo também identificou características particulares na vocalização do animal.
O resultado foi a confirmação de uma nova espécie. E a história fica ainda mais curiosa porque pesquisadores já haviam registrado rãs-de-vidro naquela região em 2013. Na época, os animais foram identificados como pertencentes a uma espécie já conhecida, a Vitreorana eurygnatha. Somente a investigação mais detalhada mostrou que se tratava de outro animal.

Ovos sobre folhas
A descoberta também permitiu conhecer um pouco mais sobre o comportamento reprodutivo da Vitreorana micaelae. O casal coloca os ovos sobre folhas de árvores altas, acima dos riachos. O macho permanece próximo, fazendo a guarda. Depois que os ovos eclodem, os girinos caem na água e passam a viver no sedimento do riacho.
Os pesquisadores explicaram que é um ciclo que depende diretamente da conservação das pequenas áreas de mata e dos cursos d’água onde esses animais vivem.
Ameaçada de extinção
Por enquanto, os pesquisadores não sabem sequer qual é o tamanho total da população da Vitreorana micaelae. Por isso, o estudo recomenda que a espécie seja enquadrada na categoria “Dados Insuficientes” no sistema de classificação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Isso não significa que a espécie esteja oficialmente classificada como ameaçada de extinção. Significa que ainda não existem informações suficientes para determinar com segurança sua situação de conservação.
Os pesquisadores, no entanto, chamam atenção para problemas que podem atingir diretamente o ambiente onde a rã vive, como alterações no regime de chuvas, desmatamento e represamento dos rios da região.
A própria descoberta mostra como ainda há espécies desconhecidas escondidas em ambientes aparentemente familiares do Cerrado. A Vitreorana micaelae estava ali antes de ganhar um nome científico.

“Rã-de-vidro”?
O nome popular vem de uma característica marcante desse grupo de anfíbios: a pele é tão translúcida em algumas regiões do corpo que estruturas internas do corpo podem ser observadas através dela.
No caso da Vitreorana micaelae, os pesquisadores também encontraram características próprias que ajudam a diferenciá-la das espécies próximas. O nome científico, por sua vez, é uma homenagem à bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, esposa do pesquisador Wilian Vaz-Silva, que liderou a equipe responsável pela descoberta.
Pequena, silenciosa e escondida entre as árvores, a nova rã de Luziânia passou anos sem ser reconhecida como uma espécie diferente. Agora, ganhou um nome — e colocou mais uma peça no enorme quebra-cabeça ainda incompleto da biodiversidade do Cerrado.
























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































